Habilitação para dirigir PowerPoint

Em meu artigo anterior, falei sobre os marcadores (“bullets”, para quem usa a versão em inglês). Foi impressionante, recebi algumas manifestações de apoio e MUITOS, MUITOS protestos. As pessoas estão totalmente acostumadas aos tais “bullets”, não conseguem imaginar um slide sem estes elementos POLUIDORES! A veemência de alguns protestos me fez sentir um pregador solitário no deserto! Senti o peso da solidão!

Aí chegou a “Veja” desta semana, edição 2177, de 11 de agosto de 2010. Encontrei esperanças na página 26, era um artigo de Claudio de Moura Castro, um dos economistas mais respeitados deste país: “…só resta uma solução: exigir carteira de habilitação para usar PowerPoint…”. Li uma vez, duas vezes, três…não estava acreditando. Finalmente até a grande imprensa começava a entender para que serve o tal do PowerPoint. Fiquei extremamente aliviado!

O articulista comenta que o PowerPoint é um grande invento, mas que na prática tem se mostrado um desastre total. Veja os argumentos dele – que concordo plenamente, falo deles o tempo todo em minhas aulas:

  • Congestionamento visual
  • Cores demais
  • Acordes dramáticos
  • Caracteres tipográficos conflitantes
  • Excesso de informações e de slides, sobrecarregados com textos intermináveis
  • Ele encerra esta lista com uma observação deliciosa: “Culmina com o erro fatal: o texto lido!” Quase chorei de emoção ao ler esta frase, na verdade ao ler o artigo inteiro. Vamos ser justos, o professor Claudio focou em seu artigo slides usados em aulas, mas é impressionante como seus argumentos são incrivelmente válidos para apresentações empresariais. Todas insistem nestes mesmos vícios!

    Mas há esperanças, de fato há MUITAS esperanças. Recebi outro dia e-mail de uma pessoa presente em meu seminário “Criando slides EFICAZES com PowerPoint“: “Estou vencendo o desafio, meus slides estão quase todos sem os famigerados bullets. Meus slides estão mais leves e o resultado está sendo incrivelmente melhor!”. Opiniões como estas justificam plenamente meu trabalho como professor!

    Voltando ao artigo da “Veja”, o professor Claudio argumenta que se alguém recebe slides PowerPoint sem participar – atenção, SEM PARTICIPAR – da apresentação presencial, e entende tudo, é porque os slides apresentam informações em excesso. Ele vai mais longe ainda, diz que “os slides estão ARRUINANDO a aula, arrancando-a do professor e deixando desgovernada a atenção da plateia”. Um slide, arumenta go professor – e eu CONCORDO PLENAMENTE – deve ser um recurso mnemônico, usado para fixar os conceitos apresentados. Sempre digo em minhas aulas, um bom slide é aquele que fica na cabeça das pessoas DEPOIS que elas saem da sala.

    Quase chegando ao fim do artigo, o professor Claudio ainda tem munição e faz uma nova observação ainda mais deliciosa: “Se Jesus usasse PowerPoint, não teria discípulos, pois histórias, parábolas, contos e narrativas são enredos na contramão das listas mostradas em slides”. Simplesmente sensacional!

    Iria terminar este artigo sem citar outros argumentos do professor Claudio, mas eles são irresistíveis. Me permito mais um, porque agora ele “ataca” as ilustrações. “Se a figura não vale mil palavras, lixo com ela”, diz o professor num rompante extremamente feliz e inteligente. Mais ao final ele completa: “…que se fuja, como o diabo da cruz, da clip-art e dos desenhos humorísticos”. Falo frequentemente dos clip-arts em sala de aula, eles são simplórios, talvez infantis, não combinam com slides empresariais. As pessoas estranham muito, já que clip-art é comum em quase todas as empresas. Uma pena!

    O professor encerra a conversa falando – sinto como se estivesse falando ao mesmo tempo com ele, como em um jogral: “Diante disso tudo, só resta uma solução: exibir carteira de habilitação para usar PowerPoint”. Se vamos à autoescola para reduzir o risco de atropelar uma velhinha, diz o professor, nada mais lógico do que aprender a dirigir o PowerPoint para evitar barbeiragens que comprometam uma apresentação.

    Professor Claudio de Moura Castro, muito obrigado pelas sábias palavras. Seu artigo é de uma felicidade incrível, combina muito bem com minhas aulas. Não me sinto mais uma voz clamando solitária no deserto!