Brasileiro tem muito a aprender com o europeu. Tem mesmo?

Durante toda a minha vida sempre ouvi que brasileiro não tem educação, que todos nós temos muito o que aprender com o europeu. Sempre foi uma verdade absoluta, acredito que nunca ouvi alguém dizer o contrário.

Pois então, acabei de voltar de uma viagem à Berlim, foi uma experiência sensacional. Uma cidade diferente, que luta a cada dia para se reerguer depois dos grandes estragos provocados pela guerra. Praticamente todos os principais pontos turísticos que visitei não eram originais, foram todos reconstruídos. Um exemplo admirável, o alemão soube mesmo resgatar a importância histórica dos lugares mais representativos da cidade.

De fato, nestes pontos turísticos é perfeitamente aplicável a frase “temos muito o que aprender com o europeu”. Do Portão de Brandemburgo à Alexanderplatz, do Reichstag à Postdamer Platz, encontrei uma cidade impecável. Limpa, tudo funcionando, pessoas sempre procurando colaborar, um verdadeiro paraíso. E a Unter den Linden então, uma das avenidas mais belas que já vi!

Só que fiquei 30 dias lá, tive muito tempo para conhecer a cidade de verdade, aquela longe dos turistas. Andei por tudo quanto é canto, fui a supermercado, entrei em igrejas desconhecidas e andei muito de trem, ônibus e metrô. Fiquei espantado com o que encontrei. Muita sujeira na cidade, muitos bêbados pela rua, nunca vi tanto mendigo em minha vida. Em cada canto sempre alguém pedindo ajuda e esmolas. É triste!

Escrevi uma espécie de diário de viagem, foram posts diários contando minha experiência. Ainda faltam as histórias dos últimos dias, mas se você quiser ver uma amostra das ruas de verdade de Berlim e até mesmo do transporte público ao final da tarde, um dos posts mostra bem tudo isso: http://www.pessoasetecnologia.com.br/viagens/?p=9862.

Qual meu ponto aqui, falar mal de Berlim? Longe disso, muito pelo contrário. Adorei a cidade, quero voltar outras vezes. Berlim é fantástica, tem uma excelente estrutura de saúde, um ótimo apoio à população e um sistema de transportes absolutamente incrível.

Bom, mas se é assim, por que tantos bêbados? Foi esta pergunta que fiz à pessoa que me hospedou lá, a Gabi. Fui bem direto, um dia estávamos conversando na cozinha da casa dela e perguntei:

– Gabi, as pessoas em Berlim são felizes?

Ela suspirou, pensou, ponderou e por fim respondeu:

– Quem mora aqui não sabe valorizar o que tem!

Que resposta sábia, retrata exatamente o que vi!

Mas o brasileiro tem muito o que aprender com o europeu ou não? Bem, acho admirável o trabalho feito pelo governo e entidades na reconstrução da cidade. Acho um exemplo de primeira categoria a infraestrutura da cidade. Mas acho deplorável a educação da maioria das pessoas, quase todos muito grossos. Acho lastimável a falta de cuidado com a cidade, o descaso com a higiene e com a limpeza de ruas e calçadas. Lamentável também o egoísmo e a frieza da maioria, parece que só pensam em si.

É nesta hora que valorizo muito nosso país. Nós brasileiros somos mais calorosos, nós brasileiros nos importamos mais com os outros, nós brasileiros somos – por incrível que pareça – bem mais educados nas situações do dia a dia. Então, está mais do que na hora de nos valorizarmos, valorizarmos muito, porque nós merecemos. Está mais do que na hora de perceber o que temos e o que somos.

Nada como uma experiência em outras terras para abrir nossos olhos.

Um abraço grande,

Fernando Andrade
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Mas é o Rui!

Estava eu outro dia andando de bicicleta com a Cris, era um domingo ensolarado e a conversa corria solta. Em algum momento comentei que fiquei impressionado com um ônibus que havia tomado naquela semana.

Assim que entrei, ouvi alguém dizer repetidas vezes:

– Bom dia! Bom dia! Bom dia!

Estranhei, não é comum presenciar momentos de bom humor, ainda mais com tanta ênfase assim. Mais algumas quadras, uma nova expressão de alegria lá na frente do ônibus:

– Uhuuuu!

Pois é, era o motorista. Ele estava aproveitando a viagem, a cada mudança de marcha ele vibrava. A cada parada, cumprimentava as pessoas que entravam e se despedia das pessoas que saiam.

Quando contei o caso para a Cris, ela disse:

– Mas é o Rui!

O Rui é um motorista muito conhecido na linha que liga o terminal Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, à praça Ramos de Azevedo, no centro. Eu não sabia, a Cris contou que já foram feitas várias reportagens sobre ele. Foi então que percebi que o grito de alegria não era “Uhuuuu”, mas “UhRuiiiiii”.

Fiquei interessado, pesquisei mais sobre ele no Google. Descobri que além de saudar as pessoas que entram e saem do ônibus, ele anuncia o nome de cada ponto de parada. Você acha isso muito? Pois então, além de dizer o nome, ele também fala sobre os atrativos da região:

– Atenção, promoção no supermercado. O quilo da batata sai por R$ 2,00. Vai dizer que está caro?

Por que o Rui age assim? Encontrei algumas palavras dele no site do UOL:

– Percebia que isso ajudava porque muita gente não sabia onde descer, não sabia ler e tinha vergonha de perguntar. Eu também quis tirar essa imagem ruim que os passageiros têm do motorista e do cobrador. Por isso, sempre cumprimento todo mundo.

Impressionante! Que exemplo de vida! O Rui falou isso em 2013, data da reportagem que encontrei na internet, e continua assim até agora, afinal eu o encontrei há umas duas ou três semanas. Aos 53 anos de idade que tem hoje, me atrevo a dizer que o Rui é uma pessoa feliz.

Gosto de pensar que levo a vida como ele. De fato, acho que levo sim. E você, como está sua vida? Enquanto pensa na resposta, vale dar uma volta de ônibus na linha “Terminal Campo Limpo – Praça Ramos de Azevedo”. Ou, se você não mora em São Paulo, veja uma reportagem com o Rui aqui. Imperdível!

– Uhuuuu!

Ou melhor:

– UhRuiiiii!

Um abraço grande,

Fernando Andrade
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fernando@pessoasetecnologia.com.br