Não sei fazer!

Havia pouco mais de 20 pessoas na sala, o curso era Excel em um nível intermediário. Comecei as primeiras explicações no telão, todos olhando atentamente. Inclusive a Beth!

Como sempre faço, os exemplos são simples no início e ao longo da explicação vou aumentando a complexidade. Felizmente esta turma estava bem atenta, disposta, acompanhando tudo o tempo todo. E sinalizavam acenando a cabeça, ou sorrindo, que estavam entendendo tudo. Inclusive a Beth!

Depois de um tempo de explicações, chegou a hora de cada um repetir em seu próprio computador cada célula da planilha criada no telão. Os alunos suspiram fundo nesta hora, já estão ansiosos para ver se entenderam tudo. Todos começaram a trabalhar avidamente! Menos a Beth!

Pois é, em vez de dar os primeiros passos, a primeira reação dela foi falar “Não sei fazer”! Mas como não sabe fazer, pensei eu, eu havia acabado de explicar, a Beth – junto com todos os outros – estavam sinalizando que tudo estava muito claro. E devia estar mesmo, porque estavam todos trabalhando intensamente em seus exercícios.

O que estava acontecendo com a Beth? Sentei ao lado dela e comecei a conversar sobre a proposta do exercício. Para minha surpresa, ela insistia em dizer que não sabia fazer, mas … estava fazendo. A cada passo completado, ela repetia: “Não sei mais o que fazer”!

Como percebi que ela sabia sim fazer, eu a deixei andando com as próprias pernas. E fui acompanhar outros alunos.

Exercício terminado, a aula continuou com novas explicações. Muitas explicações. E a cada nova proposta de exercício, a Beth insistia: “Não sei fazer”! Só que ao longo da aula, este jeito negativo de encarar o entendimento dos conceitos apresentados estava contaminando os alunos. Todos estavam entendendo tudo sim, mas a frase da Beth criava uma sensação de um não entendimento.

Bom, já que ela estava contaminando negativamente a turma, resolvi usá-la para uma contaminação positiva. A cada exercício, e depois da esperada frase “Não sei fazer”, eu sentava ao lado dela e provocava – em voz alta, para todos ouvirem – “Ah, acho que você sabe sim”! E ia perguntando, sempre em voz, sabendo que a turma toda estava ouvindo:

– Qual a proposta deste novo exercício?

E ela respondia. Respondia certo, claro!

– Então, qual recurso do Excel temos que usar?

Mais uma vez, ela acertava em cheio. E assim eu continuava com mais duas ou três perguntas, até que ela não tivesse mais argumentos para o tradicional “Não sei fazer”! E a turma percebesse que ela estava entendendo tudo muito bem, e eles também!

Por que será que uma pessoa que estava entendendo tudo começava cada exercício dizendo “Não sei fazer”? Seria uma forma de se defender, assim se não soubesse fazer não seria um problema, afinal ela já havia avisado que não sabia mesmo fazer?

Bem, não sei exatamente quais foram os motivos dela, o fato é que a aula foi sensacional. No final, todos preencheram uma avaliação escrita com muitos elogios. Todos gostaram muito. Inclusive a Beth!

Um abraço grande,

Fernando Andrade
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